Ponto Final

Paulo Sergio de Moraes Sarmento

Sinopse

Pitadas de humor e ironia, são temperos que harmonizam a narrativa e os diálogos por todo este romance, que, embora seja uma obra de ficção, tem um pouco de tudo, como nas histórias de vidas reais. O narrador, responsável por conduzir a trama, tem como seu papel, tentar influenciar o leitor. O narrador é aquele que sabe tudo, é testemunha ocular de todos os momentos, antecipa situações, e habita os pensamentos dos personagens. Incrível o poder que os autores dão aos narradores: estão sempre em todos os lugares ao mesmo tempo; ficam infiltrados na cabeça e na alma de todos os personagens, observando, julgando e, por vezes, os traindo, contando seus segredos. Todo autor que dá ao narrador o poder de contar a história à sua maneira, e ponto de vista, certamente, usa isto como um artifício para se ausentar da responsabilidade, tanto quanto, ao destino reservado a cada personagem, como ao desfecho da história. Talvez, algum leitor possa achar que o narrador deste livro tenha lá as suas preferências por este, ou aquele personagem. Já os personagens, bem, estes são bem complicadinhos, dramáticos, inseguros, voluntariosos, aventureiros, e, mais, um pouco como se humano fossem. Aliás, complexidades e idiossincrasias, como é de se esperar de personagens fortes, em um romance como este, feito para entreter, para brincar com a imaginação, esperar que o leitor tome partidos, que venha iluminar cantos sombrios e criar suspeição, do quanto é real, e do quanto é ficção. A trama se passa na cidade de São Paulo, no bairro de Moema, de classe média alta. Segue na cidade do Rio de Janeiro, com passagem pelos badalados bairros de Ipanema e Leblon, e pela emblemática Rocinha, nos últimos tempos, mais conhecida internacionalmente que Copacabana. E tem Lisboa! Linda, majestosa capital de Portugal, tão próxima dos brasileiros. Todos esses lugares, com seus encantos e características, compõem e dão toque de realidade que transporta o leitor para todas as cenas e cenários. Divirtam-se.

Ponto Final marca a estreia de Paulo Sergio de Moraes Sarmento na ficção literária. Com sua experiência como contador de histórias, o autor entrega uma narrativa que prende o leitor do início ao fim.

Aprecie um trecho do livro:

CAPÍTULO 1

Fernando estava com a garganta seca e só bebendo muita água resolveria isso. Devia ser por volta das quatro horas da manhã. A leve ressaca o incomodava.

Desde a noite anterior, sexta-feira, até aquela madrugada de sábado, Zuleica e ele haviam bebido muito uísque e conversado sobre tudo, como sempre faziam. Gostavam de beber e conversar. Esticavam os assuntos, brincavam muito um com o outro, rolava sempre carinho, cumplicidade, polêmicas, pontos de vista opostos, altas discussões na proporção das doses ingeridas e o tempo deslizava tão gostoso e inocente como a bebida que estivessem tomando goela abaixo. Como era bom viver com ela, estar com ela!

Foi até a cozinha e acalmou a sede com um copo de água gelada. Precisava mesmo era de um balde. Eles “bebiam bem”, como se diz. Era por prazer a dois, até o limite que cada um sabia aguentar ou supunham saber.

Não estava com tanto sono assim e Zuleica já tinha ido dormir. Pensou em abrir o notebook para ocupar o tempo, mas veio a preguiça. A luz do dia estava próxima, o céu querendo clarear e, dali a pouco, iria amanhecer. Com as ideias ainda fervilhando, pensou:

“Felizmente, como todos os dias, o sol nasce para a maioria das pessoas deste planeta, menos para quem mora nas regiões dos polos. Puxa, difícil para nós que vivemos em clima tropical, imaginar que naqueles rincões polares durante todo o inverno, dormir e acordar, por meses, é sempre noite! Que tristeza…”

Só por esse nível de pensamentos, sabia que o sono teimava em não chegar. Estava sem sono e não iria dormir tão cedo.

Olhou de relance para o quarto e viu Zuleica descoberta, nua da cintura para cima, de costas, dormindo gostoso, serena, bem relaxada. Ela não gostava de saber que ressonava, melhor, ronronava como uma felina. A cena lembrava uma pintura renascentista. Não resistiu. O desejo foi mais forte e se aninhou ao lado dela.

Entrou na cama bem devagar para não a acordar, encostou seu corpo ao dela e sentiu seu calor. Carinhosamente, começou a alisar suas costas, sentiu seu cheiro, beijou sua a nuca e os pensamentos voaram…

Sua vida mudara de uma forma nunca imaginada. Nada havia dado certo como acreditou que fosse acontecer. Aliás, como tudo o que se relaciona ao futuro, imaginamos, sonhamos e dificilmente acontece como o previsto.

Não foi diferente com o que havia planejado um tempo atrás e até que, felizmente, tomara outro rumo. Acreditava naquele momento, depois do que ocorrera e de maneira tão ruim, que pudesse conseguir uma fase de reconstrução, que estivesse se afastando da experiência que o fizera viver um período de verdadeiro massacre.

Tudo o que ele queria era que todos os sentimentos que ainda restavam se resolvessem. Tudo mesmo?

Exigente como sempre fora, em geral, quando pensava nesse assunto, reconhecia que a culpa fora dos planos mal elaborados que fizera. Na época, lógico, julgava serem os melhores. Mas pelas peripécias da vida, as tais ironias, o que parecia bom terminou de forma lamentável, ficando ainda pior depois do fato incrível que acontecera, mudara o rumo de sua vida e criara uma situação tão grosseira e decepcionante.

Era uma longa e complicada história da qual Fernando constantemente se lembrava e relembrava, cena por cena, mesmo quando parecia se divertir e estar amando novamente. Um passado que ainda o atormentava e brincava com ele no presente e no futuro que pareciam promissores.

Na vida, tudo o que nos acontece é sempre novo. Nunca é igual e quase nunca corresponde ao planejado, por mais bem elaborado que o plano possa ter sido concebido.

O fato é que, quando imaginamos o futuro, tudo não passa de mera suposição ou intenção. O futuro só existe em nossas cabeças. Ele nunca será como o desejado. Se incerto assim não fosse, a vida seria medíocre e não espetacular e fantástica como é. Só que: o hoje foi um futuro no passado.

Nem por isso, deixamos de sonhar e fazer projetos. A natural insegurança sobre o que o futuro nos reserva, leva muitos a buscar respostas nos poderes da mente, nas energias cósmicas, na sinergia radiônica, na influência dos anjos e previsões de videntes, tarólogos, astrólogos, numerólogos, jogadores de búzios e outras especialidades do gênero. Sem nos esquecermos das intrigantes e românticas ciganas que leem as linhas das mãos.

Todos querem enxergar o futuro que não existe, tentando, assim, acalmar a ansiedade alimentada pelo desconhecido.

Coisa de doido! Coisa de gente!

Fernando sabia disso como ninguém, mas sentia a necessidade de construir uma visão de futuro e depois, outra, a cada mudança nos rumos. Era a sua maneira de encontrar respostas, acalmar sua enorme ansiedade e alimentar suas esperanças. Ansioso, disfarçava bem suas angústias.

Conhecera Zuleica havia pouco mais de dois anos. Foi como uma bênção dos deuses. Parecia coisa atribuída às conspirações do Olimpo. Ainda que se considerasse cético quanto às crenças em geral, achava divertido usar a mitologia grega para exagerar na dramatização. ‘Um recurso de retórica’, justificava.

Coincidência, fatalidade, destino ou o que mais ele pudesse acreditar que havia sido, era a sua determinação obstinada em querer retomar as rédeas de sua vida, que lhe dava força. E aquela mulher deitada ao seu lado, quentinha, cheirosa e de pele macia, era parte das mudanças definitivas às quais se propusera. Era assim que tentava explicar para ele mesmo a complexidade da sua situação.

Esse tempo que vivia com Zuleica, estava sendo uma convivência leve, promissora, com expectativas normais entre duas pessoas vivendo em pleno amor… Amor? Era bom o relacionamento que tinham. Havia momentos em que duvidava de tanta felicidade e estabilidade ou (como também admitia a hipótese) era a sua opção para que desse certo e, por isso, dava o melhor de si para que assim fosse. Mais que amor, havia dedicação da sua parte. Um projeto.

Questionador a respeito de tudo, Fernando às vezes pensava que se apossara dele, uma grande vontade de amar uma mulher e escolhera Zuleica, que cruzara seu caminho. Era uma coisa sincera, honesta e, principalmente, decidida. Como se fosse um sentimento que ele pudesse controlar e aplicar quando bem entendesse. E estava caprichando. Foco no objetivo.

– Diabos! – murmurou – O ser humano nunca está satisfeito!

Recostado na cama, com desejo de acordar Zuleica e fazer amor com ela, sua mente o traiu entrando no túnel do tempo e fazendo com que relembrasse um passado recente que deixara, nele, feridas mal cicatrizadas. Uma história ainda sombria que precisava ser revisitada para que fosse resolvida e, definitivamente, arquivada. Desejava fortemente isso. Uma situação mal resolvida e, por isso mesmo, não totalmente digerida. Para tanto, precisava que fosse iluminada com fortes refletores.

Por outro lado, por pior que tivesse sido o desfecho que o sangrara, não podia negar a importância da situação esdrúxula que viveu e que, teimosamente, estava sempre às voltas na sua lembrança trazendo tantas interrogações. Nefasta, inverossímil às vezes, no fundo, ele sabia que fora uma inequívoca realidade cujos fatos ainda representavam um marco importante na sua vida.

Nunca seria indiferente a eles, não poderia e, mesmo que fizesse as pazes com seu passado, sabia que ele não seria apagado de forma definitiva. Acontecimentos que marcaram com ferro em brasa e ainda ardiam…

Não conseguia deixar de se perguntar como as coisas haviam chegado àquele ponto. Mesmo depois do tempo transcorrido, era difícil encontrar respostas. Tentara, sem muito sucesso, obter explicações plausíveis e, na sua intensa busca por respostas, não se importava em ficar trabalhando tudo aquilo em sua cabeça. Era, simultaneamente, uma tentativa de encontrar a paz, saber conviver com a saudade e deixar o passado em seu devido lugar.

Pensou: “ainda bem que a nossa relação chegou ao ponto em que chegou. Foi amargo, sofrido e, principalmente, triste. Muito triste. E como tudo tem um fim, comigo não foi diferente. É bem possível, de alguma forma, que outras pessoas possam passar pelo que eu passei. Serei eu o único que teve uma experiência como aquela? Foi lamentável, inimaginável e chegou ao fim…

Chegou mesmo, Fernando”?

Por tudo de doloroso que sentira na época, o nó na garganta, como um calo, ainda permanecia resistindo. Parecia consumir sua vida aos poucos e ameaçava sua saúde mental. Continuou pensando:

“E por que não? Ainda sinto, ora! Reconheço. Mas tem um lado bom. A tempestade passou e me trouxe outras perspectivas. Não deixou de ser uma situação imposta que me livrou daquele relacionamento complicado e, felizmente, o tempo se incumbiu de mostrar quem, de fato, ela era. Não fui eu quem provocou o desfecho. O que importa, agora, são os resultados para a minha vida no presente e no futuro. Ora, não tem aquele ditado que diz: há males que vêm para o bem? Então… preciso estar totalmente convencido disso” …

Tais argumentos eram cuidadosamente articulados para que acreditasse que conseguiria tirá-la dos seus pensamentos. Esperava que um dia tudo pudesse estar apagado de sua memória, ou pelo menos, nela trancafiado e ele com a chave. Era vital que isso acontecesse. Implorava ao tempo e ao seu equilíbrio mental que fizessem cada um, a sua parte, e ligeirinho. O seu pensamento seguia:

“Estou no meu limite. Eu sabia que um dia iria acontecer, cedo ou tarde. O meu sossego depende de vê-la desaparecer” …

Pura ilusão.

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Paulo Sergio de Moraes Sarmento é economista, jornalista e empresário. Iniciou sua trajetória de escritor, em 1986, com o lançamento de Marketing Direto – um novo caminho, obra que se tornou um Best Seller no gênero. Em seguida, publicou Prepare-se – Faça a sua empresa crescer, livro que inspirou o curso Rumo ao Crescimento, oferecido pela MS Business School, na Flórida (EUA). Decidiu explorar o universo da ficção, fazendo do romance um contraponto instigante à sua produção de não ficção. Dessa experiência nasceram os romances Ponto final! e Anthrax on the Rocks, publicados em português e espanhol. Uma de suas características, como autor, é fundir a ficção com a realidade, combinando emoção com informação.

Livro Impresso: Em Português - MS Publisher; Ano: 2021 ISBN: 978-65-994656-5-4 Páginas: 468 - Formato: 16x23cm Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Sarmento, Paulo Sergio de Moraes Ponto final / Paulo Sergio de Moraes Sarmento. -- 1. ed. -- Santos, SP : MS Business Publishing, 2021. ISBN 978-65-994656-0-4 1. Ficção brasileira 2. Humor I. Título. 21-63134 CDD-B869.3 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira B869.3

Gênero romance, para leitores que apreciam histórias cheias de emoções, fantasia combinando com realidade e humor. Também em e-book, no idioma português.

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